Pensamentos

SENSOS DE CULPA

 

Senso de culpa é a pena de quem se condena por qualquer escolha contracorrente, ignorando que mesmo os desejos transgressivos são fonte de crescimento interior.
O nosso inconsciente, a energia, não aceita ordens, pula dentro de nós para vassourar toda a nossa vida ordenada: sensos de culpa que as pessoas devem aprender a jogar fora para dar espaço a um prazer total, livre.
Assim na vida, quando o amor vem nos encontrar, sob qualquer forma, devemos aprender a recebê-lo, a sentir prazer sem culpa, a viver emoções intensas; devemos aprender a viver o amor e o prazer não mais como algo do que temos que fugir, para não sofrer maus tratos mentais e físicos. Devemos aprender a enfrentar a luta que acontece dentro de nós, a luta entre o que eu quero e o que eu posso. Uma luta contra as forças eróticas que querem nos surpreender, possuir, que querem desarticular as certezas, onde o nosso ser consciente, assustado tende a fazer, sentir errado, preso por dogmas e pré-conceitos. O consciente da nossa mente engana muito: não consegue falar, gozar, ter prazer sem ponderar, sem programar, sem lembrar, sem trazer à tona o passado com todos os seus condicionamentos.
O certo é nunca procurar respostas no passado pelo que nos acontece agora, nunca explicar as atrações, nunca comentá-las. O desconhecido é o lugar certo para o Eros: a ausência de comentários, de comparações, de lembranças, são os companheiros de viagens ideais para o amor. O amor não ama projetos e planos, os detesta.
Tem um momento na vida no qual temos que estar abertos e acessíveis frente às forças que vem nos encontrar, ou seja, sem ter nada a dizer, sem ter que escolher, mas simplesmente recebendo, aceitando sem resistência alguma aquilo que nos atropela, que nos assusta. Não precisamos ser sempre protagonistas, podemos nos colocar de forma complementar, sem tentar dar ordens ao Eros, sem guiá-lo. As paixões vêm nos trazer o caos, a desordem, para desestruturar a nossa vida ordenada, programada, estruturada..., mostrar o lado misterioso da nossa alma.
Quando ativamos o nosso raciocínio lógico, - faço mal a alguém? – ao meu parceiro (a)? – o que vai ser da minha família? – tem suficiente dinheiro pra nos separar? – que tipo de pessoa eu sou? Limitamo-nos, criamos mecanismos para que a paixão se afaste e raramente ela volta.
O consciente, ao invés de ficar feliz e agradecer pela volta do Eros, se sente em crise, fica mal e acha que não está em condições de amar de verdade. O Eros aparece para ajudar as pessoas a parar de se julgar, a se deixar levar para as emoções, a viver.
Para poder aproveitar todas as forças do Eros e curtir a vida precisamos, em primeiro lugar, nos limpar, nos reenergizar: somente depois de curar todas as infecções do nosso coração, seremos capazes de alcançar a união com a nossa alma gêmea.


VIVER SOB ACUSAÇÃO

A sociedade humana cresceu e se desenvolveu também graças a regras e proibições, inventando os conceitos de punição, culpa e pecado, aprendeu a se organizar. O grupo, a manada, precisa de alguém que decida por si e defina as regras a serem respeitadas: é a única forma para poder se organizar e evoluir. As crianças não conhecem o conceito de culpa, até aprender as regras impostas pela educação.
Aprendemos na física e na biologia que um organismo para se manter ativo deve estar sempre em movimento entre o caos e a ordem, respeitando e às vezes quebrando equilíbrios pré-constituídos. No caso do homem, parece que um movimento deste tipo não funciona: quando quebra uma convenção, quando transgride, é levado a se sentir culpado e se bloqueia. Nesse caos a vida não evolui e acaba se tornando uma energia parada que freia todo o processo evolutivo do indivíduo.
Precisa que o senso de culpa se redimensione, se torne mais elástico, mais tolerante, menos dramático, para que não iniba o nosso crescimento. Os desejos transgressivos que nos alimentam devem poder conviver encontrando um equilíbrio com o medo de errar e o remorso por tê-lo feito. O erro é trair a nós mesmos, as forças que nos animam, o talento que nos inspira. E se esse último nos leva as vezes a expressar a nós mesmos fora das regras convencionais, vamos esperar um pouco a culpá-lo: lembremos que aquele processo misterioso que nos guia, sabe o caminho a ser feito para a nossa evolução, mesmo que siga guias não sempre convencionais. A nossa racionalidade desconhece o que somos, e não tem condições para nos guiar pelo caminho certo, portanto, se nos percebemos infringindo algumas regras a mais, paciência: em compensação estamos vivos.

TEMOS O CÉREBRO NA PRISÃO

Porque a cada transgressão existencial nos sentimos perdidos e em conflito conosco? É nessa escolha de vida a causa dos nossos sofrimentos. Submissos como somos dos padrões e das normas que regulam a nossa sociedade, somos expostos as suas chantagens. Continuando a nos questionar sobre o que é bom ou ruim, arriscamos de viver sempre com o “Livro das regras” nas mãos.
Ao lado do senso de culpa convivem outros sentimentos que o definem e o completam. São emoções que tendem a bloquear qualquer fantasia que nos estimule a “soltar as amarras” e a viver plenamente. Os códigos da sociedade regulamentam a nossa vida: fazemos de tudo para que os outros nos aprovem, precisamos nos espelham sempre em algum modelo de referência e temos sempre a idéia fixa de ficar melhor. Se a nossa vida é assim, temos os sensos de culpa sempre ativados e não temos alternativa.
Nietzsche mostra como tudo isso atinge o homem que busca a vida perfeita e sempre de acordo com todos, que ele define como o “encantamento da sociedade e da paz”. O encantamento social que nos prende é um emaranhado de códigos, regras, proibições explicitas e não, chantagens emocionais... um mundo onde fazemos distinção entre o Certo e o Errado, onde buscamos os erros cometidos para depois nos culpar deles. Este é o resultado dos muitos modelos familiares, religiosos, culturais, que nos condicionam e que agem na nossa mente continuamos nos dizendo o que é o Bem e o que é o Mal, se o nosso comportamento é aceitável ou não, se quem fica por perto aprovaria a nossa atitude ou não, dificultando ao nosso instinto sugerir como viver e ao nosso intuito de nos guiar como uma bússola entre os imprevistos da existência.
O senso de culpa do ser humano é uma conseqüência da separação do nosso passado, da dificuldade em conviver com ele e de novas situações conflitantes que temos dificuldade em absorver. Na realidade o nosso cérebro é curioso, criativo e faria um contínuo “zapping”, assim como na TV, entre os diversos canais da vida: quando não gosta de algo, quando é repetido, mudaria para algo novo. Nós não, não nos sentimos preparados para pular existencialmente de um canal para o outro, acreditamos de ter que respeitar sempre a imagem que demos, sem nos distanciar desta idéia. Talvez a temos construído com esforço e desgaste, suamos para fazer com que os outros nos aceitem e nos aprovem. É nesse momento que entra em jogo o senso de culpa para agir como um freio de mão: inibir qualquer iniciativa um pouco fora das regras, nos manter dentro das fileiras, fazendo com que as nossas ações sejam sempre dentro de um nível conhecido, aceito e controlável. Existe uma grande diferença entre uma poça e o mar aberto. A primeira é feita de água “morta”, sem surpresas. O segundo é um mundo em movimento, onde as ondas, o vento e a correnteza tornam muito vivo e imprevisível o fluxo de água. O senso de culpa tem a função de nos deixar longe do mar aberto, de não nos deixar nem conhecê-lo, de estacionar em um espaço tranqüilo, onde não se machuca ninguém e se fica ali, junto com os outros. Mas é uma situação que mata a alma e a sua criatividade, que impede de amadurecer e descobrir as próprias potencialidades e autonomias para poder se separar do cardume.

 

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